REABILITAÇÃO ESTAÇÃO SUL E SUESTE

A disciplina da arquitetura, define-se essencialmente como disciplina de natureza projetual em que "o ato do projeto" é o de passar de uma ideia a uma realidade física. Mas é também um "ato de cultura", ou seja, o reconhecimento do "nosso tempo", das aspirações e necessidades das comunidades e dos lugares.
 
A atividade turística tem, desde sempre, partilhado com a arquitetura essa mesma função de "agente cultural", não só nos grandes projetos hoteleiros que se tornaram símbolos de épocas diversas, mas também e mais recentemente nos grandes projetos de equipamento turístico para a cidade de Lisboa, como são os da Frente Ribeirinha.
Poderia afirmar-se que o turismo de qualidade esteve sempre estreitamente ligado à arquitetura de qualidade e vice-versa.
 
Este ano, dando continuidade às intervenções que o Turismo de Lisboa desenvolveu em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa e 90 anos após a inauguração da Estação Sul e Sueste, do arquiteto Cottinelli Telmo, celebramos a reabertura deste edifício agora dedicado ao turismo marítimo e fluvial.
 
Intervir num espaço tão emblemático, ao mesmo tempo monumental e familiar, é reconhecer e respeitar a sua história na reinterpretação dos elementos que constituem a sua imagem arquitetónica- o carácter cenográfico nas superfícies animadas pelos jogos de luz ao longo do dia, o recurso formal típico das "Art Deco"- a sua modernidade nos generosos envidraçados de caixilhos metálicos, intercetados pelas palas de betão e os materiais nobres nos acabamentos interiores.
Para Cottinelli Telmo "o edifício ter[ia] esse caracter moderno em que, banida toda a decoração sentimental e inútil, fica quase apenas um jogo de volumes e de lisos em que falam principalmente a logica de construção e as proporções".
Para seguir esse principio, sem "sentimentalismos", apesar do "peso" da responsabilidade pela relação familiar com o arquitecto, procurou-se adotar uma filosofia de restauro, garantindo as proporções, num trabalho de reforço de todo o edifício.
O trabalho de restauro nos painéis de azulejos, a recuperação dos elementos da decoração original e dos materiais (frisos, paramentos, pavimentos, etc.) bem como a reposição dos elementos desaparecidos ou deteriorados pelo desgaste dos anos e pelos improvisos das sucessivas ocupações (lampiões, mármores, azulejos, claraboias, relógios, etc.) deram nova vida ao edifício que se encontrava já em grande estado de degradação.
Na relação com o rio, o edifício voltou a ganhar protagonismo, agora limpo das construções apostas durante os últimos anos.
E do rio, luminosa e coroada pelos novos lampiões, a fachada, outrora camuflada por acrescentos vulgares, reconquistava o seu lugar de porta de entrada para a cidade.
Por fim e não de menos importância, o projeto de mobiliário para o Átrio Principal viria valorizar e dar sentido ao conjunto: por isso a inevitável escolha (também por razões familiares e não só) das poltronas Boroa de Daciano da Costa para consolidar o carácter verdadeiramente intemporal do edifício.
Um testemunho da passagem de 3 gerações de arquitetos neste lugar voltado ao rio.
 
Ana Cottinelli Telmo Monteiro da Costa

Dados técnicos:.
Localização: Lisboa
Data: 2017-2021
Área: 1.755 m2
Cliente: Associação do Turismo de Lisboa

Arquitectura: Ana Monteiro da Costa
Colaboradores: Fernando Freire, Gonçalo Pereira, Hugo Ferreira, Mafalda Lacerda, Pedro Aflalo

Imagens 3D: 1825
Fotografia: Josefa Searle

REABILITAÇÃO ESTAÇÃO SUL E SUESTE